Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Vinte anos depois...

Depois de muito tempo, eu quebrei o gelo. E naqueles pedacinhos de água congelada saiu tudo, toda aquela história que eu tinha cansado de contar. Eu tinha esperança de contá-la como uma espectadora, como uma pessoa de fora, simplesmente contar. Afinal, já passou. Mas não, eu contei tudo e ocorreu aquela catarse. Afinal, era eu naquela história. Era você naquela história. Mais importante ainda: éramos nós. E éramos uma só. E eu chorei depois de vinte anos, mas chorei rápido, passou.

Acho que eu não mudei tanto assim.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
de onde vem, para onde vai:

Vamos continuar...

Você ainda guarda aqueles rabiscos? Você ainda vê valor naquilo? E quando a gente sonhava que ia lançar livros? Correu tudo tão rápido pelo meio dos dedos.
E se tivéssemos mãos palmadas, talvez, as palavras ficassem retidas naquelas peles por entre os dedos. E fossem formando bolsas de letras, mas não fugiriam nunca. Sei lá, minhas mãos são como patas dos que nadam... acho que eu nunca deixei fugir tudo isso que eu conquistei. Eu não deixei. Ainda é meu e eu ainda amo.

"Quando eu era criança eu criei vinte mil coelhos imaginários e cada um representava um sentimento, uma coisa que eu gostava. E eu nunca deixei de ser criança, penso eu, já que eles só se multiplicam, como coelhos mesmo, e eu já tenho vinte anos na cara."

"São balões que vão explodindo aos poucos. Era disso que você precisava. Esse coelho mau com uma agulha nas mãos. Esse coelho real que estoura todas suas ilusões. Você está liberta, coelhinha, eu estou aqui."

Não faz sentido nenhum quem se ama e quem ama e quem é amado e que se amam ficarem separados. Qual é nosso impedimento? Uma estrada? Você acha isso justo, digo, largar todas as palavras por uma estrada ridícula, esburacada, mas que com certeza não tenho dificuldade nenhuma para atravessar?

"Faz tempo que eu não toco aqui, nessa pasta cheia de folhas irregulares. Não achei justo jogar tudo isso fora, principalmente pela confiança que colocou em mim em deixar tudo isso comigo. Ou talvez por eu ter me dado tal confiança por ter ido sem falar e carregado toda nossa produção. Continuo então essa narrativa, talvez muito infantil para os olhos dos amantes de hoje e talvez muito adulta para os nossos. Para quem até agora não entendeu, os coelhos são metáforas, mas não os culpo. Eu só fui descobrir isso agora, com mais de vinte anos na cara."


Vamos continuar, pois temos uma literatura a inventar e corações para expor.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
de onde vem, para onde vai:
Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Poesia romântica de Niterói.

Quero te ver na raiz da pessoa
até que se quebre o encanto
e volte eu
à forma bela e oca
parnasiana

Quero ver teus defeitos reais
além do seus gestos em sonhos
que não tenho a audácia de desconstruir

Quero te ver rir
das palavras chulas
da gente da rua
- sujas, pobres -
que nada te fizeram

Tornei santa
a menina que canta
e corre e cansa
pra ir trabalhar

A menina fluminense
que esconde os dentes
quando vai sorrir

A menina bêbada
que dorme na mesa
e promete sempre nunca mais sair

Cansei de ser romântica
e ficar o dia na cama
esperando morrer

Já que a doença não chega
e os olhos doem
vou mudar o escrever

Tirarei as flores do vaso
e a terra que fez crescer

Vou tornar palavra
a porcelana barata
que gastei mil fortunas pra ter

Vou tirar teus órgãos
e pisar no coração

Teria em seu corpo
toda minha inspiração
se não fosse tão
tão
tão gente
menina indecente
que nos vasos criou sementes
que nem sei como fiz brotar

Nasceram flores lindas
de cores, de brilhos, de cheiros
que há tempos tento palavrear

Mas é tudo mentira
é só poesia
que eu cismei em fazer

Mas é tudo mentira
subjetiva
sem valor

A forma que vale
já que era de mentira
mudei
deixo você
na gaveta.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
de onde vem, para onde vai: ,
Sábado, 4 de Julho de 2009

Próxima estação: Recreio.

Só os gringos, os velhos, os travestis e os informais passam de Botafogo. A estação mais bonita do Rio que é a seguinte (direção zona sul) permanece vazia. Na próxima o vagão esvazia. Na última, onde o galo canta, meia dúzia de velhos que se mantêm em casas antigas. Depois disso é outra parte do Rio: Leblon e Ipanema sozinhos. Além São Conrado é mau caminho... fora do mundo.
De lá venho eu, onde me criei, mas nunca me acostumei. De lá venho para me igualar: não passarei de Botafogo. Lá eu estaciono, é lá que eu amo e é lá, tão lá, que vou morar.
Eu não sabia até então que os bairros e estações mudavam a vida de gente. Talvez por nunca ter me sentido no meu bairro e esse não tem estação. E quando vier, eu digo, meu limite é o Cantagalo.
Logo, larguei de lado o mau caminho... fora do mundo... fora do meu mundo de cá.

(18.06.09)

P.S: Claro que faço generalizações, claro que eu passo do Cantagalo e claro que eu não tenho preconceitos com nenhuma das figuras presentes no texto, e até as que estão entre-linhas. Só quis deixar claro que assim como a maioria da Zona Sul do Rio de Janeiro, eu não vou passar da estação de Botafogo com muita frequência, mesmo sabendo que boa parte de mim está muito longe daquilo. Além do mais, possuo bons amigos além dessa estação.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
de onde vem, para onde vai:

Ruas da nova vida.

Ando rápido, bem rápido pelas calçadas estreitas de Botafogo. com calor, bem calor e estou de pulover. Se eu tirar tenho que parar pois há um chapéu vestindo a cabeça e janelas nos olhos. Quem mandou não usar o novo paletó?
Mas tá frio, bem fresco. Se eu tirar bem logo sentirei os pêlos pela pele se ouriçarem. Mas até lá já cheguei a casa, será?
Andam bem devagar cavalos na minha frente fazendo barulhos bastantes, bem barulhentos pelos tamancos. Não se mancam, é uma calçada estreita. com calor e quero chegar a casa. Não sei se é porque sou nova aqui ou muito me acostumei com os passos largos da Voluntários da Pátria, mas será dia de tamanquear devagar passeando pela Bambina?
Ah! Como amo isso aqui, por mais que de algumas vezes que aqui fiquei roubaram-me os poucos vinténs que possuía. Talvez por parecer tão turista e tão apressada à toa.
Meu desejo hoje, após chegar a casa, é querer um dia ser como essa gente: congestionar a calçada da Bambina e não temer o vento frio enquanto dou passos pequeninos, mas no meu caso, sapateando, já que não uso tamancos.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
de onde vem, para onde vai:

que encontro?

fui ao encontro de julia
depois nunca mais me encontrei;
fui de encontro com julia
no mesmo encontro que a abracei
e a beijei
- ou me beijou -
enfim
nunca mais me encontrou;
fui ao encontro de julia
e a pancada doeu a testa
o nariz e até o nível dos ombros
foi forte demais;
fui de encontro com julia
ela se atrasou
mas me beijou
pra compensar;
sem contar os elogios
o "sim" com a cabeça
pedindo pra eu ficar;
já não entendo as mulheres
principalmente a mim
que dentre milhares
escolhe das violentas
que no esbarrão me beijam
e no afastamento me batem;
fui ao encontro de julia
ou de encontro de julia?
até agora não sei.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
de onde vem, para onde vai: ,
Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

"Desculpe se eu não sei escrever..."

Peço desculpas por não saber descrever o que eu vi. Por não saber descrever direito, exatamente o que eu sinto. Isso é prova de que eu, assim como você, não sei me expressar. E isso não tem nada a ver com palavras escritas ou desenhadas como as suas.
Talvez você saiba ser mais clara do que eu, claro! Eu escondo meu sentimento por trás de ironias por achar tudo muito brega. Uso ironia já que essa se encarrega de dizer exatamente o contrário do que eu queria. Você não. Você diz, não teme. Você me olha nos olhos e diz todas as coisas ridículas. E eu, temo o que?

Ando muito fria, desculpe. E ando mais do que o normal, tanto que ainda não tirei o "pseudo-" da denominação que me deu. E talvez nunca saia disso por mais que já esteja tudo consumado. Talvez acabe antes que eu queira assumir que já começou faz tempo. Não! Não quero que acabe o que eu ainda não assumi que começou faz tempo, só acho que vai demorar o suficiente para você cansar do prefixo.

No desenho eu vi exatamente o que sou: pseudo-algo-para(de)-você. E eu vi em você exatamente o que é: você. Sem prefixo, sem sufixo, sem nada. Simples, exatamente o que é. Totalmente entregue. Como se eu fosse uma caixa de SEDEX que se partiu em vinte e cada pedaço foi entregue a um destinatário diferente. Alguns pedaços já estão sendo entregues em suas mãos, enquanto os outros muitos andam perdidos por aí em lugares que eu não sei e se sei finjo não saber.

Não aguento mais escrever sobre medos, fazer repetições, tentar inventar sobre a vida dos outros e coisetal. Minha vida anda tão feliz e eu simplesmente ignoro. Talvez porque seria muito frustrante tentar descrevê-la e não ter êxito. Mas eu já fiz isso várias vezes, sempre fiz na verdade, por que agora não fazê-lo? Talvez dizer Porque sou pseudo-algo-para(de)-você fosse funcionar, mas eu nunca fui simplesmente eu-para(de)-alguém, ou já?

Estou com a opotunidade de ouro em mãos de sê-lo... e aí? Ou será que eu dei, novamente, nome próprio à solidão?

E sim, te desculpo por não saber escrever, afinal, nem eu sei.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
de onde vem, para onde vai:

Pior que o nome ajuda...

Não devo olhar para o lado, só para as letras escritas na minha frente. Não olha pro lado! Não olha pro lado! Não olha pro lado! Droga!
Acho que é a idade, ou acho que é culpa sua, ou acho que sou eu, ou acho que sou mulher e mulheres sentem essas coisas... sentem? Devem sentir, sei lá, mas vai chegar uma hora que esse desesperozinho crescendo vai se juntar àquele que está acumulado e está apitando, que está me avisando para fazer o que eu deveria fazer desde o início e fui irresponsável... vai tudo misturar, assim, de uma vez só e quando eu não aguentar mais fudeu. FUDEU.
Pior que só de pensar que eu sou capaz de perder a cabeça e falar tudo de uma vez de um jeito bem adolescente (Cara, não aguento mais. muito a fim de você, mesmo. Desculpe!), eu fico com medo. Medo porque eu vou estragar tudo. Medo adolescente de perder amizade. Medo adolescente de ser mal falada. Medo adolescente por sentir que meu coração está comprometido e não, eu não devo.
Foderá mesmo?

Peço com toda a delicadeza do mundo que pare de falar do jeito que fala, de ajeitar o cabelo do jeito que o faz, de ter os olhos do jeito que são e de falar baixinho quando teve uma idéia genial, para que só eu escute. Claro! E pare de ficar tão próxima de mim e por tantas vezes. Não me obrigue a te escrever.

Desde já agradeço.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

D²uvido: Só faltava eu.

Eu vi minha mãe no leito da morte e desde então visito aquele túmulo coberto de neve todo ano. Não vi minha filha no leito de morte e desde então minha vida anda incompleta, mas eu procurei nesse mar de lacunas um motivo pra viver. Continuar vivendo para que as mulheres da minha família continuem existindo. Meu filho - é, meu filho - vai ser pai de uma menina linda chamada Melissa.

Estou no leito de morte, mas não posso morrer. Quero ver minha neta crescer e viver com meus amigos. Quero ser forte como minha filha pediu para que eu fosse e como minhas amigas também. Eu ainda tenho uma missão aqui e por mais que eu não tenha religião nem muito menos saiba que missão é essa, preciso ficar. Preciso me casar com quem eu amo. Preciso realizar uns sonhos bobos. Preciso ver quem eu amo realizar seus sonhos, bobos ou não. Preciso sair daqui. Agora.

Quando acordei no dia seguinte nem acreditei. Mesmo assim comecei a ficar com medo da notícia que ia receber: tinha adiantado tirar tal tumor? Ia perder os cabelos? Eu tava com muito medo, muito medo, muito medo. Lembrei de uma coisa muito importante. Mandei um email para meu filho e depois para ela:

Sabe por quê eu não vou morrer? Porque eu ainda vou te ver feliz, nem que eu tenha que fazer isso pessoalmente. Reza por mim? Eu te amo.

Quando acordei horas depois foi com barulhos. Pessoas falando a minha volta. Um deles disse ao me ver abrir os olhos: você tá nova. Você tá nova, você tá nova, você tá nova. Fiquei um bom tempo repetindo a frase na cabeça até tentar entender o que significava exatamente. Acho que queria dizer que eu ia viver e que já tinha passado tudo, que eu tinha meus cabelos, que eu ia ver minhas netas (agora descobri que são duas e não uma; gêmeas) e que eu ia casar.

Fui dormir, naquele hospital mesmo, pois devia descansar.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  

1,5

Tirei
um
e
me
io
em
química.

Quem
quer
viver
de
alegria?

Eis
então
agora:

é
somente
essa
minha
poesia.
escrito e/ou sentido por: Gina Campari. |  
Assinar: Postagens (Atom)