quarta-feira, 6 de julho de 2011

Doce Inverno.

Fiz um chocolate quente - seria mais bonito se eu escrevesse "café", mas não bebo café, aí seria mentira - e me sentei no banco em baixo das árvores. Um dia um amigo foi me visitar aqui em casa e me esperou lá. Perguntou se eu costumava me sentar ali e eu disse que era a primeira vez, sendo que eu já moro aqui há quase dois anos. Disse que eu precisaria fazer isso e, mais de um ano depois, eu fiz.
Fui de luvas, chinelo com meia, morri de frio e fiquei olhando a fumaça do chocolate sair. Para variar, fiquei olhando a hora no telefone vendo se estava próximo d'ela chegar. Lembrei que eu não tinha feito um chocolate para ela, não só por saber que ela prefere café, mas por ter esquecido mesmo. Criei um argumento na minha cabeça e esperei que chegasse.
Ouvi um barulho de sapato nas pedras e vi que era ela, tirando meu foco da fumaça que saia da caneca. Coloquei no chão e fui abraça-la. Nunca sei se o abraço dela é com vontade, já que ela é sempre tão delicada. Mas é um abraço bonito.
O sorriso eu também nunca sei se é de aprovação, de reprovação, de felicidade ou indiferença. É um sorriso tão calmo e que não chega a forçar os músculos da boca nem aumentar as marcas de expressão próximas dos olhos.
Ela sentou do meu lado e, sem falar nada, ficou olhando minha caneca que eu já tinha pego e colocado no colo.

- Não fiz um pra você porque a caneca é grande, prefiro dividir.

Ela sorriu um pouco mais do que de costume, pegou a caneca da minha mão e tomou o primeiro gole, já que eu sempre tenho medo de queimar a boca, assim como fiz dias atrás.

- Você costuma vir aqui?

Ela perguntou a mesma coisa que meu amigo e eu respondi da mesma forma. Não surpresa, ela disse "Deveria", mas completou com "Me chame mais vezes, acho ótimo".

Ficamos boas horas bebericando aos poucos o chocolate até ele ficar em uma temperatura agradável, após a troca de calor com o frio glacial do Rio de Janeiro, para que dividíssemos o resto. Coloquei a caneca no chão, tirei as luvas pois já estava quente.
Ela sentou um pouco mais perto de mim e pegou minhas mãos. Fez a mesma cara que todo mundo faz por achar minhas mãos geladas, eu reparei, mas ao invés de chegar a essa conclusão óbvia, ela disse que eu preciso mesmo de luvas, mas não agora.
Como sempre olhei qual anel ela estava usando e antes que eu terminasse de chegar a conclusão da cor da pedra - que parecia verde, amarela, azul - ela me deu um beijo. Depois largou minhas mãos e me abraçou. Sem saber - como sempre - onde colocar as minhas, eu coloquei nos cabelos, aproveitando que eu estava com frio. Paramos naquela posição durante uns 10 minutos.

Perdi a noção do tempo até ela falar: tenho que ir. Me deu um beijo rápido, o mesmo sorriso de sempre. Levantou, pegou a bolsa e, prestes a andar, falei:

- Nunca sei se seu sorriso é de aprovação, de reprovação, se você gostou, se você não gos...
- Quando não forem de aprovação, eu aviso. Por enquanto são. Adorei o chocolate. Amo você.

Colocou a mão quente no lado direito do meu rosto, me deu outro beijo e foi embora. Olhei pro telefone e vi que tinha se passado um bom tempo, até percebi que estava escuro, que o carro da minha mãe chegou na garagem, que meu irmão já vinha andando e eu tinha que ver meus seriados.

Que continue assim nossos invernos, seja em conto, em sonho, no Rio ou em Buenos Aires.