Esses dias, quando percebi que eu sinto mesmo falta do meu irmão, eu senti falta de outras coisas mais. Senti falta da inocência que eu tive um dia, muito tempo atrás, mas tive. Quando meus quereres se resumiam a coisas simples, como chegar em casa e brincar.
Eu sempre fui materialista e sempre quis as coisas na hora, naquela hora, mas era diferente. Tinha uma pureza de criança, que eu não tenho mais. Claro, esperava-se que eu a perdesse já que eu não sou mais criança, mas essa era uma das coisas dessa época que eu não queria perder.
Felizmente eu ainda me lembro e tenho vontade de voltar a ter essa inocência quando eu me deparo com algumas situações, como essa de sentir falta do meu irmão, que sempre foi muito presente na minha infância. Ou quando eu passo por algum balanço, quando eu vejo minha avó, quando eu vejo os desenhos que eu via. Coisas simples.
Eu lia gibi. Eu via desenho e quando o desenho acabava, eu inventava outras histórias. Essa sempre foi o que de melhor eu tinha, até um certo tempo atrás. Claro que uma hora eu ia substituir os gibis por livros, os desenhos por filmes e incluiria os amores na parte de inventar histórias, já que meus melhores foram de mentira - até hoje.
Mas eu ocupei minha melhor parte, meu coração e meu tempo com coisas vazias. Eu fiquei mais egoísta e egocêntrica. Fútil, mau humorada, estressada e com preguiça de viver as coisas simples da vida que antes eu vivia sem problemas e me faziam bem. Agora, o pouco tempo que eu tenho comigo mesma eu prefiro me isolar, porque até sair tem atraído esses sentimentos desnecessários, mas ainda bem que me atraíram também pensamentos como esse: que eu preciso me encontrar.
Ao contrário de muitos, eu não preciso ir para longe para me encontrar. Eu posso ficar em qualquer lugar, desde que sozinha - ou com ela. Eu preciso fazer as coisas que eu gosto - e eu até que gosto de fazer muitas coisas -, me sentir feliz por tê-las feito, e tê-las feito com vontade, pois isso vai me levar a um sono tranquilo que vai me dar forças para acordar no dia seguinte e ver que eu consigo.
Posso não voltar ao tempo, trazer meu irmão de volta, o balanço e a cia constante da minha avó, mas eu posso ser menos do que eu sou hoje, pois tudo isso que está quase fazendo a cabeça explodir de tanta informação não é necessário, eu só preciso criar algo, ter um tempo sentada em baixo de uma árvore e ganhar um beijo dela que, ah, eu vou voltar aos pouquinhos e eu tenho esperança que isso vai acontecer.
E infelizmente tudo isso tem me levado a ser o que eu nunca quis ser e a fazer o que eu nunca quis fazer, mas que sempre foi necessário: escrever para reclamar de mim. Não preciso de psicólogo, pelo menos.